Operação Charles Mingus

Um dia, eu me dei conta que precisava mudar meu estilo de vida... Tudo está registrado aqui

Wednesday, April 05, 2006

Quarta feira, o começo

São 15h. Nunca visitei todas as cidades do país, mas nada me convence que essa não seja a mais quente de todas. E essa é a hora do ponto de ebulição, onde tudo parece que vai simplesmente derreter. Pelo menos era com me sentia andando na principal avenida da cidade, me confirmando que eu tinha atingido o ponto mais baixo aceitável da minha vida. Inventei uma desculpa no trabalho, fui pegar um material realmente desnecessário perto de minha casa enquanto ligava para minha mãe pedindo algum dinheiro para almoçar.

Estava há duas semanas sem almoçar decentemente. Trocava um ou outro vale transporte por um cachorro quente e refrigerante na barraquinha em frente ao banco. O gordo, o cara da barraca – nunca soube o nome dele – sempre deixava porque eu era cliente antigo. Por algum motivo, talvez puro descontrole obsessivo, meu dinheiro havia acabado totalmente no meio do mês. Então eu precisava andar apressado, sem dar atenção às pessoas que olhavam meu cadarço desamarrado e porque eu estava todo de preto num dia tão quente. Meu plano era resolver tudo em 40 minutos.

Calor e fome sempre ajudam na sensação que o tempo está se arrastando, então fiquei um pouco tranqüilo. Quando a transação – com meu irmão, que desceu para entregar o dinheiro – encerrou, já eram 16h. Meu celular já estava tocando, com todos dando pela minha falta. Não menti, disse que tinha ido pegar uma encomenda na tal empresa e já estava voltando.

Parecia que aquela ia ser minha grande refeição. O restaurante, por acaso, tinha meu prato favorito, que só seria servido no dia seguinte (um desses “pratos do dia”). Era o que faltava para legitimar todas as coisas que não saiam da minha cabeça naquela tarde. O prato veio péssimo, preparado de maneira errada. Um molho substituindo outro, com ingredientes que passavam longe do meu gosto. Quantas pessoas há duas semanas sem um almoço decente se dão o luxo de reclamar assim?

Encerrada a refeição, generosa, mas de péssimo sabor, restou apenas esticar o restante do dia. Nessa semana, isso significava também ouvir piadinhas do motorista, um com um sério problema de atitude, que não parava de fazer piadas com todos. Comigo era sobre meu cabelo, que está preguiçosamente enorme. Menos de 20 minutos de volta ao jornal, já estou arrumando outro pretexto para fugir, beber uma água, pensar um pouco. Eram já 17h, eu ainda não tinha começado nenhuma das minhas obrigações. Os pensamentos eram atropelados pela idéia de levar trabalho para casa e outra madrugada sem sono. A terceira seguida.

Algumas pessoas têm a sorte de reconhecer o dia que foi o ponto de virada em suas vidas. Outras têm o azar de precisar forçar um. Vou ficar em cima do muro e forçar pelo menos uma previsão. Sexta-feira, quando sai o salário. Na sexta vai começar a Operação Charles Mingus. Em homenagem a autobiografia do jazzista, que vem com o subtítulo “saindo da sarjeta”. Já enumerei algumas coisas essenciais para um 180º no cotidiano.

Primeiro, cortar o cabelo, estou parecendo King Kong. O antigo. Segundo, parar de sair todos os fins de semana, mesmo sem ter o que fazer. Terceiro, me livrar das dividas, parar de comer na rua e comprar CDs e Livros por kg. Quarto, garantir que terei dinheiro no banco todo mês, voltar a usar minha conta do banco. Depois disso, penso em parar de usar sempre a mesma roupa e outros pontos.

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